GAGA: FIVE FOOT TWO

Escutando: álbum Joanne, Lady Gaga

Confesso que não estava muito empolgado com o filme, desde que foi divulgado. ‘Gaga: Five Foot Two’ foi adicionado em ‘Minha Lista’ de filmes da Netflix para ser assistido mais tarde, e assim ficou até então. Mamãe já disse: não crie expectativas, crie porcos. Mas que surpresa: o filme é bom.

O documentário, em sua 1h40, mostra a ‘rotina’ de Lady Gaga desde a produção do álbum Joanne, o quinto de sua carreira, até sua apresentação no intervalo do Super Bowl. As aspas da rotina se justificam pelo fato de que Gaga ainda é uma cantora blindada, e a presença de uma câmera em sua privacidade deve ter custado várias páginas de acordos contratuais. Isso não tira o charme e beleza do doc, mas há de se ter consciência que há filtros na apresentação da ‘intimidade’ da Mother Monster. Aliás, quem espera uma Gaga excêntrica pode ir direto para seus antigos videoclipes.

Em ‘Five Foot Two’, acompanhamos uma Gaga desconstruída do que um dia já representou. Essa questão, inclusive, está presente no filme durante gravação do clipe “Perfect Ilusion”, ao se perguntar se os fãs aceitarão essa sua versão sem fantasias. É exatamente essa Gaga que o diretor Chris Moukarbel apresenta: uma mulher esclarecida sobre sua posição em um mundo machista, ao mesmo tempo em que crises de insegurança a afligem, seja quando dominada pelo cansaço ou quando tenta manter sua volta sob controle – não consegue, né.

Enquanto seus relacionamentos (fracassados) são mencionados, sua saúde é bastante explorada. Suas dores musculares permeiam toda a estrutura do filme, e somos levados a testemunhar a realização de um exame médico exatamente em meio ao vazamento do álbum Joanne – uma loja na Bulgária iniciou as vendas horas antes do prazo e o divulgaram por inteiro na web. É interessante ver a mulher por detrás do mito (ou, para quem acha essa adjetivação um exagero, do exótico). Gaga foi vendida como uma artista que fugia de todas as regras impostas as mulheres no ramo fonográfico. Fugiu. E pagou por isso. Muito caro. Gaga já foi criticada por seu corpo, suas músicas, seu comportamento, suas performances, seus fracassos, seus flops, seus relacionamentos; por ser a personagem idealizada que foi. E é a sobrevivente dessa vida insana que nos é apresentada nesse documentário da Netflix.

Por fim, o filme é bom. Não é maravilhoso, principalmente para quem espera um doc com uma Gaga vestindo carne ou qualquer outra fantasia. Mas essa versão, há algum tempo, já foi ultrapassada. Aos que têm acompanhado o desenvolvimento de sua carreira têm percebido que a personagem popstar tem dado espaço à mulher artista – e boa.

O que vale: Gaga fala de sua relação com Madonna. Em uma visita à avó, joga até um shade: se não tivesse usado aparelho ortodôntico na infância, teria mais um problema com Madonna. A visita à avó é outro momento de cortar o coração: Gaga apresenta a música sobre sua tia, Joanne (que dá nome ao álbum), à avó.

Dispensável: Gaga tem opiniões fortes, principalmente sobre feminismo. Mas em algumas cenas, determinados depoimentos não soaram tão naturais. Pareceram que foram estruturados para o filme, embora não invalidem o que representem nem por quem o foi.

Nota: 8

Ficha Técnica
Gaga: Five Foot Two, 2017 – Estados Unidos
Direção: Chris Moukarbel
Elenco: Lady Gaga, Bobby Campbell, Joe Germanotta, Mark Ronson, Donatella Versace & Florence Welch
Fotografia: Chris Moukarbel
Trilha Sonora: Patrick Belaga
Montagem/Edição: Greg Arata
Canal: Netflix