ARRAZENHA | MÃE SÓ HÁ UMA

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Confesso que estava com alguma expectativa quanto ao filme ‘Mãe só há uma’. Principalmente depois da entrevista da diretora, Ana Muylaert, no programa Estação Plural, da TV Brasil. Se ‘Estação’ trata de conteúdo associado à diversidade, por que diabos um filme como esse estaria ali?

E para minha (grata) surpresa, descobri que o protagonista Pierre carrega variantes que permitem uma discussão acerca a identidade de gênero da personagem.

Pra quem nem tem ideia do que estamos falando, voltemos duas casas: ‘Mãe só há uma’ é um filme brasileiro que estreou no último 21 de julho de 2016. Resumindo a história: se lembram do caso Pedrinho, aquele que descobriu na adolescência ter sido sequestrado enquanto bebê por Vilma, a mulher que se dizia sua mãe? Pois é a livre inspiração do enredo de ‘Mãe’.

anna-muylaert-470-gleeson-paulinoA cineasta Anna Muylaert. Foto: Gleeson Paulino

A princípio, Ana queria que o filme fosse apenas o “grito de um adolescente rebelde”. Mas os quase 10 anos de maturação na cabeça da diretora fizeram com que ela decidisse abordar questões de gênero e sexualidade na vida do protagonista. O responsável por essa “maturação”: o contato de Ana com a noitada paulistana. “Era pra ser uma história muito mais focada na relação entre Pierre e seu irmão. Mas os filmes sempre mudam”. Ainda bem.

Não que o filme fosse ruim se essas questões não fossem inseridas. Mas é muito legal ter personagens e histórias que fujam do esquema normativo-padrão que se costuma apresentar. E se essas fugas permitem um adensamento na construção da personagem, tornando-os mais críveis e menos óbvios e superficiais, mais interessante ainda. Representatividade queer não banalizada é importante sim.

Ainda que o filme não seja tão maduro quanto poderia (e deveria ser em nossa opinião), ele não é raso. Não saí do cinema com a mesma sensação que tive depois de ‘Hoje eu quero voltar sozinho’ – o de ter visto uma Malhação repaginada, embora isso não seja de todo ruim.

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O que senti foi a falta: de ter ido além. Não necessariamente no desenvolvimento da história; não alteraria o que foi feito. Mas a sensação, ao final do filme, foi a mesma que tive em ‘Julieta’, do Almodóvar; de querer ver mais! O que acontece com a irmã que também se descobre sequestrada, e tem sua re-inserção ainda mais constrangedora e violenta que a de Pierre? E a relação do menino com a mãe sequestradora? – afinal, ela AINDA é a mãe dele. E como o pai machista e homotransfóbico de Pierre vai se portar diante dos “caprichos” do filho, para que não o perca mais uma vez?

Ana já deixou claro em entrevistas que diversas outras obras já foram feitas tendo como base essa história. Nazaré Tedesco é um de nossos mais ilustres exemplos. Seu olhar, entretanto, não é voltado às mães, mas ao filho: “Ao trocar de família, escola, amigos, o que sobra para esse adolescente?”

Embora algumas críticas que circularam na web sejam cabíveis, foi um filme com vários acertos. A atriz que interpreta as DUAS mães, Dani Nefussi, arrasa na interpretação, principalmente a mãe biológica.

Quanto à identidade de gênero de Pierre, ela se torna mais explicita a partir da metade da história. Somos apresentados a um adolescente que não vê problemas em se relacionar com meninos e meninas, usar batom (mesmo que ás escondidas) e esmalte. Ao ser reinserido em sua família biológica, Pierre se utiliza desses fatores para confrontar os valores tradicionais (e “caretas”) de seus novos familiares.

‘Mãe só há uma’ emociona e constrange, acertadamente. Um filme que compartilhou comigo as inseguranças e liberdades de Pierre, e me deixou com a sensação de querer ver o que acontece depois dos créditos finais.

Por fim, o que achei: BOM!

“É louco como ninguém repara. Isso porque ela, e o Matheus também, estão incríveis no filme” – Ana Muylaert, diretora, sobre ter escalado a mesma atriz para interpretar as duas mães na história, Dani Nefussi.

“Minha irmã é trans e esse filme fez com que eu me colocasse na pele dela. Não sabemos se o personagem é trans, ele está se descobrindo, mas essa fuga do padrão de gênero me ajudou a me colocar no lugar dela” – Naomi Nero, sobrinho do também ator Alexandre Nero.

“Este filme tem um terço do orçamento do ‘Que Horas Ela Volta?’, cerca de R$ 1,5 milhão, e é mais experimental, mais ousado. Não foi feito sobre o sucesso e nem é uma continuação de Que Horas?. Quem esperava uma continuação iria se decepcionar. Mas nunca fui para um festival com a expectativa de vencer, mas sim de participar.” – Ana Muylaert, que a princípio pensou em não levar ‘Mãe’ para Berlim